O equívoco da camada única
Pergunte a um gestor de marca o que sua marca significa. A resposta quase invariavelmente se concentra em atributos funcionais: qualidade, velocidade, preço justo, tecnologia avançada. Quando pressionado, o gestor pode mencionar "confiança" ou "inovação" como valores emocionais. Raramente vai além disso.
O problema dessa abordagem não é que ela esteja errada. O problema é que ela é incompleta. E incompletude, em semiótica, produz fragilidade estrutural.
Andrea Semprini, em Le marketing de la marque (1992), propôs que a identidade de marca se constrói em três níveis distintos, derivados diretamente do percurso gerativo da significação de Algirdas Julien Greimas. Os três níveis operam simultaneamente, mas possuem lógicas próprias. Confundir um com outro, ou operar em apenas um deles, gera marcas superficiais que perdem coerência ao primeiro impacto de mercado.
Este artigo desmonta essa arquitetura. E demonstra que a maioria dos exercícios de branding contemporâneos trabalha exclusivamente no nível mais superficial, ignorando as camadas que sustentam a permanência do significado no tempo.
O percurso gerativo de Greimas como fundamento
Para entender os três registros de significado em marca, é preciso primeiro entender o modelo que os origina. Greimas desenvolveu, ao longo de Sémantique structurale (1966) e Du sens (1970), o conceito de percurso gerativo da significação: uma arquitetura em camadas que explica como o sentido se organiza desde estruturas profundas e abstratas até manifestações de superfície, concretas e figurativas.
O percurso se divide em três patamares:
| Nível | Estrutura | Função |
|---|---|---|
| Profundo | Semio-narrativo profundo (axiológico) | Oposições fundamentais de valor: vida/morte, natureza/cultura, liberdade/segurança |
| Intermediário | Semio-narrativo de superfície (narrativo) | Programas narrativos, sujeitos, objetos de valor, esquema canônico |
| Superficial | Discursivo (figurativo) | Temas, figuras, atores, cenários, tons, texturas |
O princípio fundamental: a superfície convoca a profundidade e a profundidade se converte em superfície. Cada nível depende do anterior para existir. Uma figura (um ator, uma cor, um gesto) só produz significado porque está ancorada em uma narrativa que, por sua vez, expressa uma oposição axiológica profunda.
Jean-Marie Floch aplicou esse modelo diretamente à análise de marcas e publicidade. Semprini deu o passo seguinte: traduziu os três níveis do percurso gerativo em uma metodologia para construção e auditoria de identidade de marca.
Primeiro registro: o axiológico
O nível axiológico corresponde ao estrato mais profundo da significação. Aqui operam os valores fundamentais que estruturam a identidade: oposições binárias como individual/coletivo, tradição/ruptura, controle/espontaneidade.
Semprini (1992, p. 62) define esse nível como "a fonte da identidade, o nível que assegura a continuidade e a permanência da marca no tempo e seu capital de legitimidade e memória junto aos públicos envolvidos."
Atenção ao que isso implica. O nível axiológico não é "o propósito" da marca, no sentido inflacionado que a palavra adquiriu no marketing contemporâneo. Ele é a estrutura de oposições que torna todos os outros elementos inteligíveis.
O axiológico não se comunica diretamente. Ele se infere. Quando você "sente" que uma marca tem consistência ao longo de décadas, o que está percebendo é a estabilidade do seu nível axiológico.
Exemplo concreto. A Patagonia não é "uma marca sustentável." No nível axiológico, ela opera a oposição permanência vs. descartabilidade. Tudo que a marca faz, desde a garantia vitalícia até a campanha "Don't Buy This Jacket" de 2011, é uma manifestação de superfície dessa oposição profunda. A sustentabilidade é o tema discursivo. A oposição axiológica é anterior e mais estável.
Quando uma marca troca de posicionamento a cada três anos, o diagnóstico semiótico é preciso: seu nível axiológico nunca foi definido. Ela operava apenas em superfície, e superfícies são descartáveis.
Como o nível axiológico se conecta à prática
Kapferer, em The New Strategic Brand Management (2012, 4ª edição), coloca a cultura como uma das seis facetas do prisma de identidade. Cultura, no modelo de Kapferer, é o sistema de valores fundamentais que a marca encarna. Esse é, essencialmente, o registro axiológico traduzido para um vocabulário gerencial.
A diferença de Semprini para Kapferer é metodológica: Semprini pensa em oposições (porque vem de Greimas); Kapferer pensa em constelações de valores (porque vem de gestão). Ambos concordam que existe um nível profundo, anterior à comunicação, que determina a coerência de longo prazo.
Segundo registro: o narrativo
O nível narrativo organiza os valores axiológicos em programas de ação. Semprini (1992, p. 63): "A articulação do universo narrativo permite à marca colocar em cena seus valores."
Se o axiológico define o que a marca valoriza, o narrativo define como essa valorização se estrutura em relação com sujeitos, objetos e transformações.
Greimas formalizou isso no esquema narrativo canônico: manipulação (um destinador propõe um contrato), competência (o sujeito adquire o saber/poder fazer), performance (o sujeito realiza a transformação), sanção (a avaliação do que foi feito). Floch demonstrou que marcas funcionam exatamente assim.
Manipulação: "Just Do It" funciona como contrato proposto ao consumidor. Existe uma tarefa a cumprir, um limite a superar.
Competência: Os produtos Nike (o tênis, a roupa técnica) são os meios que equipam o sujeito para a ação.
Performance: O ato atlético, o treino, a corrida. A narrativa de marca se completa no corpo do consumidor.
Sanção: O reconhecimento social da conquista. As campanhas com atletas reais funcionam como evidência de que a sanção é possível.
O ponto metodológico é que esse registro não está nos anúncios. Ele está entre os anúncios. Está na lógica que conecta uma campanha à outra, um produto ao seguinte, um patrocínio à escolha de embaixador. Quando a Nike assinou Colin Kaepernick em 2018, a decisão fazia sentido narrativo: o programa narrativo da marca sempre envolveu superar resistência, e Kaepernick personificava resistência contra estruturas estabelecidas.
Marcas que trocam de narrativa a cada briefing sofrem de uma patologia precisa: incoerência no segundo registro. O axiológico pode até existir, mas o modo como ele se organiza em ação muda constantemente, impedindo que o público construa um modelo mental estável.
A armadilha do storytelling sem estrutura
O mercado de branding adotou "storytelling" como palavra mágica. O problema é que a maioria dos exercícios de storytelling opera apenas no nível discursivo: escolhe personagens, cenários, tons de voz. Sem o registro narrativo formalizado, cada "história" é uma peça solta. Bonita talvez. Desconectada certamente.
Floch, em Sémiotique, marketing et communication (1990), demonstrou que marcas eficazes possuem um programa narrativo identificável e recorrente, independente do meio ou do formato. A Volvo, por décadas, executou o mesmo programa narrativo: o sujeito enfrenta um mundo hostil (acidentes, estradas perigosas, condições adversas) e o objeto de valor (o carro) garante a integridade física. A sanção é a sobrevivência. Sem esse esquema, a marca teria sido apenas "um carro seguro." Com ele, Volvo se tornou a marca que protege quem você ama.
Terceiro registro: o discursivo
O nível discursivo é o mais visível e, paradoxalmente, o menos determinante. Ele compreende as figuras concretas que manifestam a narrativa: atores (quem aparece na comunicação), cenários (ambientes, contextos visuais), temas (sustentabilidade, inovação, tradição), tons (sério, irônico, provocativo) e texturas sensoriais (paleta de cores, tipografia, materiais).
Semprini (1992, p. 64): "Este nível é o mais sensível ao ambiente sociocultural, aos modos de vida e às atitudes dos consumidores."
E aí reside tanto a utilidade quanto o perigo. O discursivo é o registro que permite à marca se atualizar, dialogar com tendências, adaptar-se a novos contextos culturais. Mas é também o registro onde a maioria dos erros de branding acontece, porque gestores frequentemente confundem mudança discursiva com mudança de identidade.
| Registro | O que muda | O que permanece |
|---|---|---|
| Axiológico | Quase nada (reposicionamento radical) | Oposições fundamentais de valor |
| Narrativo | Variações do programa (novos papéis, novas jornadas) | Estrutura do esquema narrativo |
| Discursivo | Figuras, temas, atores, tons, formatos | Coerência com os registros anteriores |
A Apple oferece uma demonstração nítida. No nível axiológico, a oposição é simplicidade vs. complexidade. No narrativo, o programa segue o esquema: o sujeito (o usuário criativo) enfrenta a resistência de ferramentas opacas e o objeto de valor (o produto Apple) dissolve essa resistência para liberar o potencial expressivo. No discursivo, as manifestações mudaram radicalmente ao longo de quatro décadas: do Macintosh 1984 (contra-cultura, anti-IBM) ao iPhone 16 (minimalismo editorial, fotografia computacional). As figuras mudaram. O axiológico e o narrativo permaneceram intactos.
Quando a Apple lançou o HomePod em 2018, o produto fracassou comercialmente. A análise semiótica aponta a razão: o HomePod operava no programa narrativo da Amazon Alexa (assistente doméstica, automação de rotinas), que pertence a uma lógica axiológica diferente (eficiência/conveniência). A Apple tentou competir em um registro que não era seu. O produto contradizia o nível profundo da marca.
A função dos registros: coerência vertical
O conceito operacional que emerge dessa arquitetura é o de coerência vertical. Uma marca coerente mantém alinhamento entre os três registros: o discursivo expressa o narrativo, que organiza o axiológico. A auditoria de marca, nos termos de Semprini, consiste em verificar se esse alinhamento se sustenta.
Três diagnósticos típicos de falha:
- Superfície sem fundação. A marca possui identidade visual elaborada, tom de voz definido, campanhas bem produzidas, mas sem axiologia estável. Resultado: cada novo diretor de marketing reconstrói a marca do zero, porque não há estrutura profunda que guie as decisões.
- Axiologia sem narrativa. A marca definiu seus "valores" (o axiológico existe, mesmo que formulado de modo genérico), mas nunca os organizou em programa de ação. Resultado: os valores permanecem abstratos, incapazes de orientar decisões criativas ou estratégicas.
- Narrativa sem atualização discursiva. A marca possui estrutura axiológica e narrativa sólidas, mas repete as mesmas figuras discursivas há décadas. Resultado: coerência mantida, mas irrelevância cultural progressiva. A marca é "consistente" porém invisível.
O terceiro caso é particularmente instrutivo. Consistência e relevância são qualidades de registros diferentes. Consistência opera nos níveis profundos. Relevância opera na superfície. Uma marca precisa das duas, e elas vêm de camadas distintas.
Relação com o prisma de Kapferer
Jean-Noël Kapferer estruturou o prisma de identidade de marca em seis facetas: físico, personalidade, cultura, relação, reflexo e autoimagem. As seis facetas não são aleatórias. Elas se distribuem em dois eixos: emissor/receptor (quem fala vs. quem interpreta) e exteriorização/interiorização (o que se vê vs. o que se projeta internamente).
Se sobrepormos os dois modelos:
| Registro (Semprini) | Facetas (Kapferer) |
|---|---|
| Axiológico | Cultura + Autoimagem |
| Narrativo | Relação + Reflexo |
| Discursivo | Físico + Personalidade |
A cultura (o que a marca encarna como sistema de valores) e a autoimagem (como o consumidor se sente ao escolhê-la) operam no registro profundo. A relação (o tipo de vínculo que a marca propõe) e o reflexo (quem é o consumidor idealizado pela marca) organizam a narrativa. O físico (elementos tangíveis e sensoriais) e a personalidade (se a marca fosse pessoa, como falaria) são manifestações discursivas.
A sobreposição não é perfeita, porque os dois modelos possuem genealogias diferentes: Semprini vem de Greimas, Kapferer vem de gestão estratégica. Mas a convergência é significativa o suficiente para confirmar que a arquitetura em camadas não é invenção de uma escola isolada. Ela aparece onde quer que se analise marca com rigor.
As quatro axiologias de Floch como conteúdo do primeiro registro
Resta a pergunta: quais valores operam no nível axiológico? Floch (1990) propôs um mapeamento baseado no quadrado semiótico. As quatro axiologias do consumo definem quatro modos de valorização:
- Valorização prática: valores de uso, funcionalidade, confiabilidade. O produto importa pelo que faz.
- Valorização utópica: valores existenciais, identitários, de projeto de vida. A marca importa pelo que ela permite ser.
- Valorização lúdica (negação do prático): luxo, prazer, gratuidade. O produto importa pela experiência que proporciona, independente de utilidade.
- Valorização crítica (negação do utópico): relação qualidade/preço, análise comparativa, racionalidade. O produto importa pelo quanto rende por cada unidade investida.
O mapeamento de Floch não é uma tipologia de marcas. É uma tipologia de modos de valorização. Uma mesma marca pode operar em mais de um quadrante, mas geralmente possui um quadrante dominante que define seu registro axiológico.
A IKEA, por exemplo, opera primariamente na valorização crítica (boa relação custo-benefício, racionalidade do design democrático) com incursões na valorização utópica (a promessa de uma vida doméstica melhor para todos). A Hermès opera na valorização lúdica (artesanato como prazer, materiais como experiência sensorial) com ancoragem na valorização utópica (pertencimento a uma tradição de excelência que transcende o tempo).
Implicação para auditoria: o protocolo dos três registros
Qualquer auditoria de marca deveria começar não pelo inventário de "pontos de contato" e sim pela verificação da coerência entre registros. Um protocolo mínimo:
- Identificar o axiológico. Qual é a oposição fundamental que a marca encarna? Se a resposta for uma lista de adjetivos ("inovadora, confiável, humana"), o axiológico não foi identificado. Oposições têm dois polos. Adjetivos soltos não constituem estrutura.
- Mapear o narrativo. Qual é o programa narrativo recorrente? Existe um esquema identificável que conecta campanhas, produtos e decisões estratégicas? Se cada campanha conta uma "história diferente" sem programa comum, o narrativo está ausente.
- Auditar o discursivo. As figuras concretas (visuais, verbais, sensoriais) são coerentes com o narrativo e o axiológico? Se sim: atualizar as figuras para manter relevância cultural. Se não: diagnosticar onde a ruptura acontece e corrigir.
A ordem importa. Começar pelo discursivo (o que a maioria faz) é reorganizar a decoração de uma casa sem verificar se a estrutura está de pé.
Onde a prática do mercado falha
A indústria de branding opera quase inteiramente no terceiro registro. Exercícios de "brand book" produzem paletas de cores, tipografias, tom de voz, diretrizes visuais. Tudo isso é discursivo. Exercícios de "brand purpose" tentam simular o axiológico, mas geralmente produzem frases aspiracionais sem estrutura de oposição. E o narrativo simplesmente não existe na maioria dos processos de branding.
O resultado é previsível: marcas que parecem consistentes quando vistas em um brand book estático, mas se desintegram quando precisam tomar decisões em tempo real. Porque decisões em tempo real exigem orientação dos registros profundos, e os registros profundos nunca foram formalizados.
Semprini antecipou esse problema em 1992. Trinta e quatro anos depois, a indústria ainda não incorporou o diagnóstico. Os três registros continuam sendo a ferramenta mais precisa e menos utilizada da semiótica aplicada a marcas.
A questão que se abre a partir daqui: se a marca é um texto com múltiplas camadas, quem controla seu significado? A próxima discussão neste cluster examina a marca como texto e a consequência radical de reconhecer que o significado de marca é construído tanto na emissão quanto na recepção.
Referências
- →Semprini, Andrea. Le marketing de la marque: approche sémiotique. Éditions Liaisons, 1992.
- →Greimas, Algirdas Julien. Sémantique structurale. Larousse, 1966.
- →Greimas, Algirdas Julien. Du sens: essais sémiotiques. Seuil, 1970.
- →Greimas, A. J.; Courtés, Joseph. Sémiotique: dictionnaire raisonné de la théorie du langage. Hachette, 1979.
- →Floch, Jean-Marie. Sémiotique, marketing et communication: sous les signes, les stratégies. PUF, 1990.
- →Kapferer, Jean-Noël. The New Strategic Brand Management. 4ª ed. Kogan Page, 2012.
- →Semprini, Andrea. La marca postmoderna: potere e fragilità della marca nelle società contemporanee. FrancoAngeli, 2006.
- →Rossolatos, George. "Applying structuralist semiotics to brand image research." Public Journal of Semiotics, vol. 6, no. 1, 2014.